20 de ago de 2011

Resenha: "O Céu e o Inferno" de Aldous Huxley - Drogas, Artes, Religião e Alucinação

!SPOILLER ALERT!
Este ensaio, continuação do ensaio "As portas da Percepção", prossegue discorrendo sobre os efeitos de algumas drogas (com ênfase para a Mescalina e o Ácido Lisérgico, que está presente no LSD), e expande essa análise para a influência da obras de arte e jóias e da religião e seus rituais.

Sua análise da mente usa uma metáfora com o descobrimento da América (Novo Mundo) e Oceania (Novíssimo) pela humanidade, quando se deparou com diferentes espécies de animais e diferentes rituais. O acesso às portas da muralha - ou seja, o acesso da consciência - devido ao uso da Mescalina (por exemplo) ou através da hipnose, provoca uma reação semelhante à descoberta das novas terras e a consciência usual é chamada de "'Velho Mundo' do consciente". O efeito da droga é explicado como sendo a atuação da mesma em enzimas que levam açúcar para o cérebro, de maneira que sua eficiência é reduzida, tornando o cérebro menos eficaz no processo de filtragem e abrindo as "portas da percepção". Esta queda nos níveis de açúcar também está diretamente relacionado a alucinações devido a longos períodos de jejum. Ou seja, períodos prolongados de jejum podem provocar distorção da realidade e há uma relação bem próxima com certos procedimentos religiosos ao ponto em que algumas épocas do ano são destinadas ao jejum, tornando o cérebro mais propenso a visões logo relacionadas à própria religião. Uma característica semelhante é, também, a descrição por diferentes religiões, da vida após a morte, geralmente associadas a luzes e cores intensas.


"O subnutrido tede a ser dominado por ânsias, depressões, hipocondria e sentimentos de angústia. É, também, capaz de ter visões [...]"

Outra técnica utilizada por religiosos que pode ser explicada no campo da busca fisiológica pelo Paraíso, é a da autoflagelação. A explicação está no fato de que a mesma provoca aumento da adrenalina ("alguns produtos de sua decomposição são reconhecidos como causadores de sintomas que lembram os da esquizofrenia") aliado ao fato de que as feridas sob cicatrização podem alterar o teor de substâncias no sangue, desregulando os padrões da "válvula redutora".

Há, ainda, a forma de se "elevar" tendo relação com a respiração, à medida em que a concentração de Dióxido de Carbono no sangue se eleva. Cita-se as repetições praticadas em cultos religiosos (quem sabe os gritos dos evangélicos?) como tendo relação com este fato para se atingir elevação espiritual. E podemos pensar nas técnicas de respiração usadas em algumas religiões de origem oriental como sendo apenas mais um exemplo dessa tática de elevação.

"Tocando certas áreas do cérebro com um eletrodo finíssimo, Penfield conseguiu provocar a reavivação de uma longa série de recordações presas a determinada experiência passada. Essa reavivação, além de precisa em todos os seus pormenores de percepções, foi também acompanhada por todas as emoções que foram provoadas, a seu tempo, pelos fatos. O paciente [...] achou-se, simultaneamente, em duas épocas e lugares - na sala de operação, no presente, e no lar de sua infância.[...] Por que insistem todos os visionários na impossibilidade de repetir, ainda que de forma vagamente semelhante, em forma e intensidade, suas experiências transfiguradoras?"


Revela também que existem certos padrões nas visões, mesmo em pessoas com diferentes visões de mundo e a íntima relação entre a necessidade de buscar essa "realidade alternativa" com atividades do cotidiano, além da religião. Por exemplo, cita as pedras preciosas, cujo brilho é parecido com a reação às cores sob efeito da Mescalina. O brilho e a raridade das gemas estão relacionadas à sua adoração pelo homens, mas não só por isso: também como uma busca pela fuga. E, relacionado a estes fatos, há a presença de Ouro e Jóias Preciosas em igrejas e templos.

"As gemas são raríssimas na Terra. [...] os doutrinadores dessa maioria assolada pela pobreza recibriram seus paraísos imaginários de pedras preciosas."

Assim, as jóias tornam-se uma arma de manipulação. O vidro seria como uma forma mais acessível de obter essas sensações visionárias, guardada a devida escala. A análise prossegue com a relação das cores e sua fascinação exercida, além das jóias, para roupas, esculturas e, principalmente, pinturas (citando inúmeros exemplos de pintores e suas obras para cada idéia desenvolvida). Falta também do teatro e suas técnicas de luzes, explicando algumas delas. O teatro, segundo Huxley, possui uma habilidade ímpar de transporte da mente. "mesmo o mais tolo dos espetáculos pode ser maravilhoso" (acho que só disse isso porque não tinha Stand-up Comedy na época, se tivesse, mudaria de opinião).

"Deus, insistirão eles, é um espírito e, pois, deve ser cultuado em espírito. [...] Acontece, porém, que de uma forma ou de outra, TODAS as nossas experiências são quimicamente condicionadas"

Há, também, a abordagem das visões negativas, da mente presa em labirintos, do esquizofrênico. Cita uma série de exemplos na arte (como paisagens de Van Gogh e os temas de Kafka). Explica como as visões negativas tornam a visão de mundo pessimista, distorcendo para pior, com sentimentos de compactação (ao contrário das visões positivas, onde o espírito se desgarra do corpo) e faz um paralelo entre essas reações cerebrais e os infernos das mitologias e religiões.

Por fim, conclui traçando uma perspectiva das sensações no leito de morte, as visões prometidas pelas religiões e os efeitos dessas práticas liberadoras da válvula de retrição do cérebro.

"Para os vivos, as portas do céu, do inferno e do purgatório abrem-se, não por meio de pesadas chaves duplas de metal, e sim pela presença, no sangue, de um conjunto de substâncias químicas e pela ausência de tantas outras."

O que aprendi:
As religiões estão muito mais que psicologicamente, mas fisiologicamente relacionadas com a necessidade de fuga da realidade. Períodos de fome intensa podem provocar distorção negativa da realidade (talvez explique porque anoréxicos tendem a ser depressivos e se envolver com drogas e álcool)

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Raphael Fernandes
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Musicalmente falando, sou assim.

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