O livro, na verdade, divide-se em dois relatos de viagem: A Ilha dos Daltônicos e A Ilha das Cicadáceas. A primeira parte explica sobre a Acromatopsia, o daltonismo total, em que a pessoa só vê tons de cinza. E, na segunda, fala-se sobre a presença de uma doença que provoca paralisia ou demência, similares ao livro e filme Tempo de Despertar.
As histórias acontecem em sequência cronológica, mas A Ilha dos Daltônicos apresenta mais detalhes geográficos, detalhando os altos e baixos da viagem do Havaí até Pingelap, passando por paraísos tropicais e infernos nucleares, onde militares ainda mantém o ambiente como nos tempos da Guerra Fria. A primeira escala é numa ilha desastre ambiental, onde a superpopulação convive com o problema do lixo. A segunda é num paraíso controlado por militares e, finalmente, a terceira é a própria Ilha dos Daltônicos.
Ebeye
Enewetak
Kwajalein
Majuro
Nan Madol
Rongelap
Na Ilha das Cicadáceas, os registros são mais de botânica, já que o relato mostra os casos dos pacientes e, em paralelo, as plantas do local, entre elas, as samambaias, epífitas (plantas como as orquídeas) e as cicadáceas, plantas da época dos dinossauros que se parecem com coqueiros.
Cicadácea
Cycas multipinnata
Fruta Pão
Humata heterophylla
Ophioglossum pendulum
Essa parte é muito indicada para quem gosta de ciência ou para quem quer se tornar um pesquisador, que esteja querendo entender como acontece a construção de uma teoria. Isso é bem interessante porque, muitas das pessoas que estão ingressando na carreira acadêmica costumam estudar os assuntos como se a teoria tivesse sido "descoberta", como se algum cientista, numa epifania, tivesse construído seu modelo. Na Ilha das Cicadáceas, é mostrada a criação (e destruição) de teorias para explicar a doença (lytico-bodig), de modo que é possível perceber como a ciência realmente trabalha: sem verdades absolutas, sempre tentando refutar uma teoria de forma a lapidá-la e aproximá-la da verdade.
Este livro, em forma de dicionário, descreve de forma sucinta (com algumas exceções de termos com mais de 2 páginas, em especial os de nazismo) algumas passagens recorrentes à época em que foi escrito, no contexto de guerra mundial, nazismo, mecânica quântica. Foi a obra de estréia (com acento) do escritor que ficou bem famoso e que o professor Osvaldo incentivou bastante a ler (ainda estou procurando coisas, é difícil, encontrei esse aí em sebo casualmente e nem tinha essa edição traduzida no Skoob).
Bom, o livro é fininho, vale a pena, ainda que tenha achado algumas partes chatas e enrolação, em especial as de filosofia, outras que não entendi bem porque citava autores que desconheço. As de ciência, por outro lado, me prenderam bastante a atenção porque ele, ao mesmo tempo que escreveu ficção, também era formado em física e podia falar disso sem ser uma bobagem sem tamanho que alguns escrevem aí sobre o mundo quântico. Basicamente, descreve bem o ambiente de pesquisa e como algumas pessoas, de fato, poderiam saber um pouco mais sobre humildade.
As pedras de Berkeley , que eu não conhecia, mas que, de fato apresentam um contra-argumento que já havia pensado. Se estamos sonhando e topar com uma pedrinha é a prova de que não estamos acordando, a pedrinha e a dor da topada não podem, também, ser parte do sonho?
"Durante séculos, o homem comum teve mais fé na feitiçaria que na ciência: para ganhar a vida, Kepler necessitou trabalhar como astrólogo"
Irônica essa situação... Só que, pra dizer a verdade, muita gente por aí dá mais atenção a bobagens ditas por "magos" que para cientistas, não é verdade? E, mesmo saindo do campo da astronomia, o pitaco é uma prática bem comum e o desprezo a quem estudou.
Aborda o limite entre a fé e a comprovação científica em "tampouco tem sentido uma afirmação como 'tenho fé no principio da conservação da energia'", já que a matemática não se tem fé ou não, mas se tem uma prova e contra ela, não há o que argumentar. E, neste mesmo campo, comenta sobre a "física a posteriori" e "a priori", uma sendo fruto de dados experimentais e a outra, de teorias a serem comprovadas. (Mais do assunto em http://www.mundodosfilosofos.com.br/kant.htm) Os exemplos utilizados por Sábato desse último caso são a relatividade e o princípo da incerteza. Creio que seja bom lembrar como algumas vezes, o cientista pode se esquecer da natureza e fazer algo do tipo "a natureza explica minha equação" em vez do contrário.
Desvenda que a "famosa frase" de Einstein de "tudo é relativo" nunca foi pronunciada, o que nos leva à quantidade de bobagem decorrente disso ainda por cima é em cima de uma frase sequer dita.
Em "Frescor", discorre sobre a relação entre criatividade e maturidade, de maneira que a criatividade está relacionada à juventude e pode ser lapidada pela experiência, na maturidade. Menciona "República" de Platão, Nietzsche e Heidegger como influências ao nazismo, e aponta outros ideólogos do nazismo.
"Quando um enamorado afirma um amor infinito, sua forma de falar deve ser denunciada como uma forma filosoficamente irresponsável"
"Um homem inteligente não se caracteriza por não cometer erros, mas por estar disposto a corigir os cometidos"
Lembra dos filósofos que tiram suas impressões, sem entender a matemática, cada vez menos intuitiva, de uma conclusã científica, muitas vezes de forma equivocada, apresentando o exemplo da suposta relação entre o princípio de incerteza e a escrita automática de André Breton. Cita Crime e Castigo com Raskolnikov. Descreve como o senso comum pode atrapalhar a ciência.
"O senso comum rechaça os fantasmas desconhecidos mas aceita os fantasmas familiares"
Um trecho bem interessante e esclarecedor é sobre o aprendizado de crianças:
"As crianças não sabem raciocinar com números puros: precisam soar maãs ou livros; muito mais tarde, inconscientemente, prescindem dos objetos físicos e calculam com números puros , abstraídos da realidade física por um longo processo mental"
Este excelente livro relata os casos de sucesso de como a música pode atuar para benefício de pacientes, melhorando a qualidade de vida de pacientes com lesões no cérebro, como a música pode ter diferentes interpretações, desde as alucinações musicais até a amusia, passando pela incrível sinestesia nata.
Neste livro, Oliver Sacks conta curiosos casos presenciados e relatados de como a música pode influenciar, positiva ou negativamente, a vida das pessoas. O livro é dividido em quatro partes: a primeira conta como a música se aloja no cérebro, das maneiras mais variadas; na segunda, os casos mostram os diferentes graus da influência da musica, desde a amusia até os savants musicais; no terceiro, demonstra como a música pode atuar com outras funções do cérebro; e, finalmente, a subjetividade das emoções provocadas pela música em pacientes.
O que aprendi: os impressionantes casos reais foram muito interessantes. Alguns chamaram mais a minha atenção, outros menos, mas todos foram capazes de prender minha atenção e me fazer refletir e provavelmente me lembrarei bem deles, a menos que eu tenha uma amnésia, como um dos casos relatados, de perda de memória de questão de minutos e a impressionante manutenção da habilidade de tocar as músicas apesar da perda da memória dos fatos (e de abraçar a esposa toda vez que a visse como se ela tivesse sumido por muito tempo). Essa história, em particular, é uma das mais emocionantes e interessantes. Descobri que, ainda que não lembrasse de um acontecimento de minutos atrás, o paciente era capaz de aprender músicas novas. Isso somado ao fato de não se lembrar de fatos da época em que conheceu a esposa, mas reconhecê-la, em particular (impossível não lembrar do filme "Como se fosse a primeira vez", piadas à parte). O primeiro caso é do médico que ganhou habilidades musicais acima do normal após ser atingido por um trovão, momento no qual tem uma "Experiência Quase Morte" e tem a sensação de estar vendo o próprio corpo da perspectiva externa (por sinal, um outro livro que estou lendo - Muito além do Nosso Eu, do Miguel Nicolelis - e um terceiro que li recentemente - As portas da Percepção/Céu e Inferno - também descrevem esta sensação). É um caso em que habilidades reprimidas são liberadas. Ao lado disso, houve grande aumento da religiosidade, atribuindo o fato de ter sobrevivido e ganhado a habilidade a um poder maior, sendo provável que a descarga elétrica e os momentos de falta de oxigenação do cérebro tenham influência também nessa crença. Um outro caso, dentro da série de casos de convulsão devido à música, foi da pessoa que tinha convulsões com o sino da igreja. Mostra como algumas pessoas podem ficar com música na cabeça repetidamente, chegando a atrapalhar a qualidade de vida e como isso se parece com Tourette e TOC, fisiologicamente. E fecha essa série com as alucinações musicais, quando os pacientes tinham a verdadeira impressão de estar uma música tocando, mas, na verdade, geralmente devido à perda parcial ou completa da audição, ser fruto da imaginação. Ou melhor, era uma audição de fato, gerada pelo próprio cérebro, devido à perda da entrada de dados. Na segunda parte, lembro dos casos das diferenças de percepção da música, de cantores que não percepiam cantar mal, das diferenças entre a percepção da técnica e da melodia. Também os casos de amusia, a perda da percepção da música, relatos do tipo "a música parecia uma série de ruídos metálicos", sendo que o próprio Sacks teve um caso de amusia após uma enxaqueca. Existem diferentes níveis de amusia: a que não reconhece música, mas reconhece vozes e outros sons, o não reconhecimento de ritmo, o de tons, a "amelodia". No capítulo sobre o "Ouvido Absoluto", há a questão do treinamento de crianças, que possuem maior probabilidade de incorporar a interpretação de sons como uma função da fala e, nessa mesma relação com a fala, temos a característica de maior probabilidade de ouvido absoluto em países com entonação musical da fala (vietnamitas). Comecei a respeitar mais os limites do ouvido com os fones de ouvido que detonam as células ciliares, responsáveis pelo ajuste fino de tons no ouvido. Por serem sensíveis, a incidência de sons altos pode destruí-las irreversivelmente e podemos cair em um dos casos em que há perda de um tom específico (o afinador de piano que não conseguia afinar uma tecla específica). Infelizmente, temos que concorrer com sons ambientes para ouvir nossas músicas em paz, porque, fora a barulheira de sempre, tem gente que põe música desagradável pra ouvirmos à força e concorrer com o barulho externo só piora as coisas. A perda do input de um ouvido pode tornar a música menos agradável pela perda da percepção da pequena diferença de tempo da chegada dos sons, entretanto, micromovimentos com a cabeça podem tentar captar novamente essa sensação, tanto para o visual (perda de um olho) quanto pro auditivo. Os casos dos savants musicais: pessoas com poucas habilidades sociais, mas capazes de lembrar de músicas sem nenhuma dificuldade. Música e cegueira: mostra como a perda de um sentido pode potencializar o outro, mesmo em idade mais avançada e o exemplo do sucesso no jazz de cegos.
Existem muitos músicos cegos, em especial (mas não exclusivamente) no mundo da música gospel, do blues e do jazz: Stevie Wonder, Ray Charles, Art Tatum, José Feliciano, Rahsaan Roland Kirk e Doe Watson são apenas alguns exemplos. Muitos desses artistas, de fato, têm o adjetivo blind (cego) acrescentado ao nome quase como uma honraria: Blind Lemon Jefferson, Blind Boys of Alabama, Blind Willie McTell, Blind Willie Johnson.
O capítulo de sinestesia foi um dos que mais me impressionou porque eu achava que isso acontecia apenas em situações de uso de drogas ou de operações, mas são, de fato, sentidos comuns de algumas pessoas. Não é fácil testar a sinestesia porque, principalmente quem não tem ouvido absoluto, não há uma cor específica para um tom específico, mesmo para uma pessoa específica. Foi proposto que a sinestesia é padrão em bebês, que ainda não possuem a divisão definitiva das áreas do cérebro, e que vão se especializando com o avançar da idade, exceto para as pessoas que mantém essa habilidade. A terceira parte contém as histórias mais emocionantes e motivantes do livro, de casos de pessoas realmente ajudadas, libertas de seus fantasmas fisiológicos, através da música. E já no primeiro capítulo dessa parte, sobre a amnésia, é um pouco pesado (o livro em geral é bem leve, mas os casos da experiência quase-morte no primeiro capítulo, este da amnésia e de Parkinson foram os que me deixaram emocionado e, ao mesmo tempo, um pouco assustado) pela assustadora sensação de que, apesar da falta de memória, em alguns momentos o paciente tinha ciência de que estava sem memória e que não tinha perspectivas de ir adiante. Quase pulei este, mas li e valeu a pena, é uma bela história, apesar de triste.
"Você consegue imaginar uma noite com cinco anos de duração? Sem sonhar, sem acordar, sem tocar, sem sentir gosto, sem sentir cheiro, sem ver, sem som, seu ouvk, sem absolutamente nada. É como estar morto. Cheguei à conclusão de que eu estava morto". A única ocasião em que ele se sentia vivo era quando Deborah o visitava. Mas no momento em que ela ia embora, ele recaía no desespero
Cita, nesta parte a Witzelsucht, doença que provoca perda da inibição social devido a danos no lobo frontal.
A amnésia de Clive não só destruiu sua capacidade de reter novas memórias, mas também apagou quase todas as anteriores, inclusive as dos anos em que ele conheceu Deborah e se apaixonou por ela.
E, ainda assim, reconhecia ela e abraçava ela como se não a visse há muitos anos. Fala também como, apesar da amnésia, é ainda possível aprender, sendo a mais forte de todas as memórias a emocional (quer pelo afeto, quer pela dor), cita a amnésia infantil (Freud).
Mas H. M., mesmo tendo perdido muitas memórias de sua vida anterior, não perdera nenhuma das habilidades que adquirira, e era até capaz de aprender e aperfeiçoar novas habilidades com treinamento e execução, embora não retivesse memórias das sessões de prática.
Ouvir música não é um processo passivo, e sim intensamente ativo, que envolve uma série de inferências, hipóteses, expectativas. Podemos entender uma nova música-como ela é construída, aonde está indo, o que virá em seguida - com tanta precisão que mesmo depois de apenas alguns compassos poderemos ser capazes de cantarolar ou cantar junto com ela.
A próxima temática é como a música pode ajudar pessoas que perderam a habilidade da fala. Eu já tinha ouvido histórias de que pessoas com gagueira cantavam perfeitamente e falar cantando era uma forma de se expressar melhor. E isso é realmente verdade e aplicado à pessoas que perderam totalmente a habilidade de falar. Uma citação do livro que me chamou a atenção foi de "Admirável Mundo Novo", sobre o aprendizado em bebês através da música hipnótica. Como a o ritmo pode melhor inserir um fato na memória, mas não torná-la informação. É o caso de pessoas capazes de falar um grande texto em seqüência, como um atendente de telemarketing ou o famoso "dois-hambúrgueres-alface-queijo-molho-especial" e ainda, orações. No caso do Admirável Mundo Novo, as crianças conseguem apreender a lista dos maiores rios do mundo mas não conseguem responder qual o maior rio do mundo. Ele cita o exemplo específico de um garçom:
Certa vez, depois que um garçom recitou a lista de pratos do dia, pedi-lhe para repetir o que vinha depois do atum. Ele não conseguiu extrair esse item isolado da seqüência que tinha na memória e precisou recitar a lista inteira de novo.
Avançando para os casos de Tourette, o ritmo da música influencia bastante o ritmo de tiques (assim como dos espasmos em Parkinson), podendo ser benéfico (controlar) ou piorar os tiques. Demonstra como um baterista tomou sua doença para ajudá-lo com improvisos e como a bateria ajudou a controlar a doença. O ritmo também ajuda a desenvolver atividades penosas, como longas caminhadas (eu mesmo mantenho um ritmo bom mesmo cansado quando faço trilha) ou atividades repetitivas.
Decerto existe uma propensão universal e inconsciente a impor um ritmo mesmo quando ouvimos uma série de sons idênticos a intervalos constantes. John Iversen, neurocientista e baterista fanático, defendeu esse argumento. Tendemos a ouvir o som de um relógio digital, por exemplo, como "tic-tac, tic-tac", quando, na verdade, ele faz "tic-tic-tic-tic".
Eu já percebi isso. Algumas vezes, de noite, sem sono, ficava prestando atenção no tic tac do relógio que parecia às vezes ter diferença entre o primeiro tic e o segundo ou agrupava grupos 2 para 1.
Em pacientes com Parkinson "pós-encefálicos", existe uma tendência a não tomarem atitudes, mas conseguirem responder. E a música pode ser o catalisador para que estes pacientes saiam da sua inércia.
Em 1966 não havia medicação que pudesse ajudar aqueles pacientes - pelo menos, nenhuma medicação para sua paralisia, sua imobilidade parkinsoniana. Entretanto, as enfermeiras e o pessoal do hospital sabiam que aqueles pacientes podiam moverse ocasionalmente, com uma facilidade e uma graça que pareciam negar seu parkinsonismo - e que o mais potente gerador daqueles movimentos era a música.
E os relatos são realmente milagrosos, este capítulo é dos meus favoritos. Da velhinha que não se movia, mas saía de sua paralisia só de pronunciar "Opus 49", mostrando, de certa maneira, que o problema não estava com a imaginação em si, e sim com a dificuldade em tomar uma "ação mental".
Ivan descreve vários estratagemas indiretos muito engenhosos para pôr-se em movimento, coisa que não conseguia fazer pelo poder da vontade pura e simples. Por exemplo, ao acordar ele permitia que seu olhai vagueasse até avistar uma árvore pintada na parede ao lado de sua cama. Isso funcionava como um estímulo, como se a árvore lhe dissesse "Suba em mim". Ivan então se imaginava subindo na árvore e assim conseguia sair da cama
Soma-se a essa parte, ainda, a história do pianista que, mesmo com o braço amputado, conseguia "tocar" com seu membro fantasma (essa abordagem dos membros fantasmas, estou lendo, com uma temática um pouco mais pesada, no "Muito além do nosso eu") e da síndrome dos movimentos específicos, que impedia, a nível de cérebro, os instrumentistas de prosseguir praticando e como o botóx pode ajudá-los, ainda que não totalmente, para além das aplicações estéticas mais conhecidas.
"De repente, percebi que a coisa mais importante na minha vida não era tocar com as duas mãos. Era a música. [...] Para ser capaz de seguir em frente ao longo destes últimos trinta ou quarenta anos, precisei dar um jeito de diminuir a importância do número de mãos ou do número de dedos e voltar ao conceito de música como música. A instrumentação torna-se secundária, e a substância e o conteúdo ganham prioridade."
A história das crianças autistas também me chamou a atenção, sobre como elas, apesar de sua aparente indiferença, poderiam ser extremamente musicais, sendo a musicoterapia uma forma muito interessante, assim como para as pessoas com Alzheimer e Parkinson, para autistas, diminuindo seus tiques. A quarta - e última - parte fala sobre emoções. Nos casos de depressão, mostra, como já suspeitava, que a música pode ser uma poderosa arma.
Queria melodias alegres e animadas, e Mozart, Haydn e Rossini estavam no mesmo nível em suas preferências. Seu único medo era um dia esgotar o repertório musical e não ter mais nada a que recorrer.
Porém, não é uma garantia, não é um remédio e, às vezes, é preciso expontaneidade ou talvez surpresa.
"As artes não são drogas", escreveu E. M. Forster. "Não há garantia de que atuem quando usadas. Algo tão misterioso e caprichoso como o impulso criativo tem de ser liberado antes de poder agir."
A música pode ser uma forma de exposição da perda da inibição ("impulso do id" - fronteira freudiana para os impulsos animais do ser humano, controlados pelo superego). Foi o caso de uma senhora, já num asilo, atingida por demência, que acabou por perder sua inibição e cantava sem parar.
(...)lesões em áreas mediais ou orbitofrontais têm um efeito bem diferente: privam a pessoa de discernimento e de freios, abrindo caminho para uma série incessante de impulsos e associações.
Além da história da memória, outro trecho bem triste está nesse capítulo sobre a demência frontotemporal:
"Eu acordo à noite", ela disse, "e o vejo ali, mas ele não está realmente ali, não está realmente presente. [...] Quando ele morrer, sentirei muita saudade, mas, em certo sentido, ele já não está mais aqui - não é mais a pessoa vibrante que conheci. É um luto demorado, do começo ao fim."
É algo pra se pensar, não só aí, mas em muitos outros casos, metaforicamente... Esta demência pode ser "benéfica" no sentido de liberar a criatividade e o talento reprimido, mas o avanço é inevitável, e detona outras habilidades consigo.
pode haver uma variedade de inibições - psicológicas, neurológicas e sociais - que, por alguma razão, talvez se abrandem nas fases mais avançadas da vida e permitam que aflore uma criatividade tão surpreendente para os outros como para a própria pessoa.
Síndrome de Williams era algo que nunca tinha ouvido falar nem nunca vi uma pessoa. A descrição, no livro, me lembrou a dos hobbits - festeiros, ingênuos, com um rosto característico e extremamente musicais.
"Sabemos que ela é mentalmente retardada", diz seu pai, "mas em comparação com ela e com outros portadores da síndrome de Williams, não será a maioria de nós 'retardada' quando se trata de aprender e memorizar músicas complexas?"
A sogra, diagnosticada como demente, mantinhaa casa acordada à noite quando os cuidadores desligavam a tevê para poderem dormir um pouco. Durante o dia, não se levantava do sofá para a higiene pessoal nem para as refeições com a família. Após aquela troca de canal, ela mostrou uma grande mudança de comportamento: pediu para ir tomar o café-da-manhã, no outro dia não quis assistir à sua costumeira programação de tevê, e na tarde seguinte pegou seu bordado, abandonado havia muito tempo. Nas seis semanas subseqüentes, além de comunicar-se com a família e se interessar mais pelo que a cercava, ela principalmente ouviu música (sobretudo Country and Western, que ela adorava)
É mostrado como a musicoterapia é uma forma de fazer interagir um grupo de pessoas isoladas.
A música familiar age como uma espécie de mnemônica proustiana, faz aflorar emoções e associações esquecidas há tempos, reabre aos pacientes o acesso a estados de espírito e memórias, a pensamentos e mundos que pareciam ter sido totalmente perdidos. O rosto ganha expressão conforme cada um vai reconhecendo a velha música e sentindo seu poder emocional. Uma ou duas pessoas talvez comecem a cantar junto, outras passam a acompanhar, e logo todo o grupo - muitos deles praticamente mudos até então - está cantando, como suas capacidades permitem. "Junto" é um termo crucial, pois instala-se um sentimento de comunidade, e esses pacientes que pareciam incorrigivelmente isolados por sua doença e demência tornam-se capazes, ao menos por algum tempo, de reconhecer outras pessoas e formar um vínculo com elas.
Também descobri, a partir de uma discussão, logo no começo, entre escala diatônica e cromática, que Si bemol não é o mesmo que Lá Sustenido, pesquisando na internet. Por uma pequena diferença quase desprezível de freqüências, são diferentes em instrumentos não-temperados, mas são iguais em instrumentos "quantizados".
Algumas músicas citadas:
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!SPOILLER ALERT!
Este ensaio, continuação do ensaio "As portas da Percepção", prossegue discorrendo sobre os efeitos de algumas drogas (com ênfase para a Mescalina e o Ácido Lisérgico, que está presente no LSD), e expande essa análise para a influência da obras de arte e jóias e da religião e seus rituais.
Sua análise da mente usa uma metáfora com o descobrimento da América (Novo Mundo) e Oceania (Novíssimo) pela humanidade, quando se deparou com diferentes espécies de animais e diferentes rituais. O acesso às portas da muralha - ou seja, o acesso da consciência - devido ao uso da Mescalina (por exemplo) ou através da hipnose, provoca uma reação semelhante à descoberta das novas terras e a consciência usual é chamada de "'Velho Mundo' do consciente". O efeito da droga é explicado como sendo a atuação da mesma em enzimas que levam açúcar para o cérebro, de maneira que sua eficiência é reduzida, tornando o cérebro menos eficaz no processo de filtragem e abrindo as "portas da percepção". Esta queda nos níveis de açúcar também está diretamente relacionado a alucinações devido a longos períodos de jejum. Ou seja, períodos prolongados de jejum podem provocar distorção da realidade e há uma relação bem próxima com certos procedimentos religiosos ao ponto em que algumas épocas do ano são destinadas ao jejum, tornando o cérebro mais propenso a visões logo relacionadas à própria religião. Uma característica semelhante é, também, a descrição por diferentes religiões, da vida após a morte, geralmente associadas a luzes e cores intensas.
"O subnutrido tede a ser dominado por ânsias, depressões, hipocondria e sentimentos de angústia. É, também, capaz de ter visões [...]"
Outra técnica utilizada por religiosos que pode ser explicada no campo da busca fisiológica pelo Paraíso, é a da autoflagelação. A explicação está no fato de que a mesma provoca aumento da adrenalina ("alguns produtos de sua decomposição são reconhecidos como causadores de sintomas que lembram os da esquizofrenia") aliado ao fato de que as feridas sob cicatrização podem alterar o teor de substâncias no sangue, desregulando os padrões da "válvula redutora".
Há, ainda, a forma de se "elevar" tendo relação com a respiração, à medida em que a concentração de Dióxido de Carbono no sangue se eleva. Cita-se as repetições praticadas em cultos religiosos (quem sabe os gritos dos evangélicos?) como tendo relação com este fato para se atingir elevação espiritual. E podemos pensar nas técnicas de respiração usadas em algumas religiões de origem oriental como sendo apenas mais um exemplo dessa tática de elevação.
"Tocando certas áreas do cérebro com um eletrodo finíssimo, Penfield conseguiu provocar a reavivação de uma longa série de recordações presas a determinada experiência passada. Essa reavivação, além de precisa em todos os seus pormenores de percepções, foi também acompanhada por todas as emoções que foram provoadas, a seu tempo, pelos fatos. O paciente [...] achou-se, simultaneamente, em duas épocas e lugares - na sala de operação, no presente, e no lar de sua infância.[...] Por que insistem todos os visionários na impossibilidade de repetir, ainda que de forma vagamente semelhante, em forma e intensidade, suas experiências transfiguradoras?"
Revela também que existem certos padrões nas visões, mesmo em pessoas com diferentes visões de mundo e a íntima relação entre a necessidade de buscar essa "realidade alternativa" com atividades do cotidiano, além da religião. Por exemplo, cita as pedras preciosas, cujo brilho é parecido com a reação às cores sob efeito da Mescalina. O brilho e a raridade das gemas estão relacionadas à sua adoração pelo homens, mas não só por isso: também como uma busca pela fuga. E, relacionado a estes fatos, há a presença de Ouro e Jóias Preciosas em igrejas e templos.
"As gemas são raríssimas na Terra. [...] os doutrinadores dessa maioria assolada pela pobreza recibriram seus paraísos imaginários de pedras preciosas."
Assim, as jóias tornam-se uma arma de manipulação. O vidro seria como uma forma mais acessível de obter essas sensações visionárias, guardada a devida escala. A análise prossegue com a relação das cores e sua fascinação exercida, além das jóias, para roupas, esculturas e, principalmente, pinturas (citando inúmeros exemplos de pintores e suas obras para cada idéia desenvolvida). Falta também do teatro e suas técnicas de luzes, explicando algumas delas. O teatro, segundo Huxley, possui uma habilidade ímpar de transporte da mente. "mesmo o mais tolo dos espetáculos pode ser maravilhoso" (acho que só disse isso porque não tinha Stand-up Comedy na época, se tivesse, mudaria de opinião).
"Deus, insistirão eles, é um espírito e, pois, deve ser cultuado em espírito. [...] Acontece, porém, que de uma forma ou de outra, TODAS as nossas experiências são quimicamente condicionadas"
Há, também, a abordagem das visões negativas, da mente presa em labirintos, do esquizofrênico. Cita uma série de exemplos na arte (como paisagens de Van Gogh e os temas de Kafka). Explica como as visões negativas tornam a visão de mundo pessimista, distorcendo para pior, com sentimentos de compactação (ao contrário das visões positivas, onde o espírito se desgarra do corpo) e faz um paralelo entre essas reações cerebrais e os infernos das mitologias e religiões.
Por fim, conclui traçando uma perspectiva das sensações no leito de morte, as visões prometidas pelas religiões e os efeitos dessas práticas liberadoras da válvula de retrição do cérebro.
"Para os vivos, as portas do céu, do inferno e do purgatório abrem-se, não por meio de pesadas chaves duplas de metal, e sim pela presença, no sangue, de um conjunto de substâncias químicas e pela ausência de tantas outras."
O que aprendi: As religiões estão muito mais que psicologicamente, mas fisiologicamente relacionadas com a necessidade de fuga da realidade. Períodos de fome intensa podem provocar distorção negativa da realidade (talvez explique porque anoréxicos tendem a ser depressivos e se envolver com drogas e álcool)
!SPOILLER ALERT! Este "livro" (na verdade, um ensaio, não tem muitas páginas, cerca de 50) é um relato de Aldous Huxley (autor de "Admirável Mundo Novo" e "A Ilha") sobre sua experiência com a Mescalina , substância encontrada em cactos usados por nativos índios dos Estados Unidos e México. Na primeira parte, ele descreve as mudanças do mundo real para o mundo sob efeito da droga e, na segunda metade, dá sua conclusão filosófica acerca disso.
A primeira metade sobre os efeitos ilustra, com ajuda de um amigo com olhos científicos e da sua esposa, o que ele vê, abstrai e sente. Ele enfatiza o aumento na percepção das cores e a falta de percepção das formas geométricas e do tempo. Cita várias obras de arte, comparando sua percepção com a abertura da mente do artista para fazer arte, onde o artista, com seu talento, expõe detalhes que a mente comum simplesmente abstrai, e ele, sob efeito da Mescalina, podia perceber esses detalhes com maior prazer. Além disso, dá declarações de cunho religioso, como se a droga pudesse libertar um espiritualismo (citando, posteriormente, várias obras de Espiritualismo e Budismo). É importante citar a sua opinião sobre a ONISCIÊNCIA , onde o cérebro tem função de restringir essa onisciência e filtrar o que é fundamental para a sobrevivência, mas, sob efeito da Mescalina, há a liberação para melhor perceber, daí ter usado um trecho de uma citação de William Blake (presente no prólogo do livro) para dar o título ao ensaio. E declara "a familiaridade gera indiferença".
Huxley frisa também o caráter passivo provocado pela droga: "Ela nos permite chegar à contemplação, mas a uma contemplação que é incompatível com a ação e até mesmo com a vontade de agir, com a própria idéia de ação." Comenta sua "falta de vontade" de sair do lugar, quando convidado a ir para o exterior do recinto onde se encontrava e sob a sensação de não ser seu eu a sair, como se tivesse vendo seus movimentos como um espectador. Sobre a música (o efeito da Mescalina na percepção da música também é comentado em outro livro que estou lendo, "Alucinações Musicais" de Oliber Sacks), disse se sentir indiferente à música instrumental, mas fascinado pela música cantada, "Essas vozes são uma espécie de ponte que nos permite regressar ao mundo dos homens". E, durante sua "viagem", frisou que o efeito deveria ser o mundo como vemos: "É assim que precisamos ver as coisas. Isto é o tipo de coisa que precisa ser vista". Manteve comparação, também, com esquizofrênicos, que vêem o mundo como quem está sob efeito da Mescalina, entretanto, não possuem a certeza de que o efeito se acabará e ainda têm angústias que provocam algo do tipo "bad trip" ao perder o conforto do mundo "real".
A segunda parte, em meu ver, foi mais agradável de ser lida. É bem menos descritiva e mais filosófica, contando o que Huxley achava sobre as percepções, sobre as drogas, sobre religiões... Reafirma a importância de se ter uma percepção extrasensorial, ou talvez, da perda da filtragem da onisciência. Relata então a íntima relação entre religiões e o uso de substâncias psicoativas, em geral, acompanhadas de álcool. O efeito dessas drogas faz com que o fiel perceba o que a religião lhe promete, ou, na verdade, o que não consegue simplesmente pela fé, atuando como um complemento. Pensei em como isso poderia se relacionar com o Cristianismo, no máximo há o vinho do Padre, mas ele vem logo em seguida comentando a respeito do Cristianismo e, de fato, o cristianismo não estimula a desvinculação com o mundo concreto e uma viagem ao mundo abstrato sob efeito de alguma droga, e, naturalmente que o vinho não seria suficiente para isso, mas, estimula que a viagem ao mundo interior seja feita através da prece (acabei de lembrar da presença do incenso em missas, mas ainda assim, não é nada que se compare...) provocando, segundo Huxley, uma frustração pela falta da sensação de êxtase. Comenta que não há restrição quanto ao uso de álcool, usado, assim, pelas pessoas para conseguir o acesso às divindades que não conseguiria através da oração.
Huxley fala da necessidade das pessoas pela fuga da realidade, coisa que já tinha pensado a respeito e chegado à mesma conclusão. De fato, pensando nos efeitos maléficos do álcool (este menos, pois existem estudos que comprovam que pode ser benéfico, sob doses baixas) e do cigarro (este sim, mais especificamente, porque é constituído, basicamente, de malefícios) e o fato de não serem proibidos, eu penso que, caso fossem proibidos (e , de fato, controlados), estaríamos sob o risco de um pandemônio. Pessoas ansiosas tendo ataques de falta de controle, pensamentos de morte presentes o tempo todo, falta de inibição social... Ás vezes penso que é preciso muita coragem para ser sóbrio. E que o cigarro não sai da vida por algum controle social. Mendigos fumam, poderiam se tornar agressivos... Pessoas em profissões de alto estresse fumam, poderia vir a surtar e funções fundamentais da sociedade poderiam não ter quem as desempenhasse. E Huxley comenta esse ponto, afirmando que apesar dos efeitos de câncer e de acidentes, o consumo ainda existe. Há a necessidade. Ser louco é uma virtude. E há um ponto do livro que me fez lembrar muito do "soma" de "Admirável Mundo Novo", onde ele disse que era necessário que a sociedade buscasse uma droga com mínimos efeitos colaterais e suficientes para conseguirmos acessar nosso interior e abstrair de nossas angústias. "Precisar-se-ia, pois , de uma nova droga que aliviasse e consolasse nossos semelhantes que sofrem, sem lhes causar dano maior, após um período prolongado de tempo, do que o bem que ela lhes pudesse proporcionar de imediato". E que essa droga não seria a Mescalina, dado seu efeito de "bad trip" em pessoas com depressão e/ou com angústias e rancores, mas sendo uma das melhores opções, mostrando que não vicia os índios (passam períodos sem uso, sem perda de habilidades) e não altera o caráter (usuários nas aldeias são até menos agressivos que os não usuários). E conclui afirmando que "o homem que vem de cruzar de novo a Porta na Muralha jamais será igual ao que partira para essa viagem", sendo importante que as mentes ativas passassem por essa experiência de percepção para entender mais o interior, apresentando grandes avanços sociais, científicos e tecnológicos.
Carioca, Brasileiro, Estudante de Robótica Hiperativo, Imperativo Gosto de tecnologia, de transporte, de Rock, de reclamar e de propagandas criativas (e outras coisas que posso ter falado em um post ou não)