17 de nov de 2011

O Rival - Luis Fernando Veríssimo

O Rival
Autor: Luis Fernando Veríssimo
O Melhor das Comédias da Vida Privada

Cláudia amava Carlos, mas não amava Carlos sobre todas as coisas. Carlos tinha um rival. Carlos um dia queixou-se para Cláudia que assim não era possível. Que se continuasse assim, era melhora pararem. Que ele nao aguentava a atençao que Cláudia dava ao rival, muito mairo do que a que dava a ele. Cláudia ficou de boca aberta. Que rival?
É preciso dizer que, mesmo de boca aberta, Cláudia era linda. Que Cláudia, além do rosto perfeito, tinha um corpo...não vou dizer "escultural", o leito pode pensar numa escultura do Giacometti e imaginar que Cláudia era magra e comprida e derramada como uma vela de andor. Ou no Henry Moore, e pensar que Cláudia tinha um buraco no meio. Não, Cláudia tinha um corpo tão bonito quanto o rosto, e o que fazia o rosto ainda mais bonito era o cabelo loiro, o vasto cabelo que escorria copiosamente, borbotante, pelos lados do rosto, e que Cláudia estava sempre ajeitando, tocando, sacudindo, desfiando, juntando atrás e predendo com um elástico e em seguida soltando, e sacudino outra vez, e desviando para trás da orelha, e apalpando, e desfiando, e enrolando no topo da cabeça, e deixando cair, e cuidando no espelho, e sacudindo, e tocando, e ajeitando, e...
Era este o rival do Carlos. O cabelo de Cláudia. Cláudia amava seu cabelo mais do que amava Carlos. Cláudia amava seu cabelo sobre todas as coisas.
-Que rival, Cacá?
E Carlos desabafou. Disse tudo o que queria dizer. Confessou a Cláudia que tinha ciúmes dos seus cabelos, Sim, ela era carinhosa com ele. Chamava-o de Cacá e, nos momentos mais íntimos, de Caquinho. Sim, mordia a sua orelha, inclusive em público. Mas não lhe dava metade da atenção que dava aos cabelos.
Claúdia começou a rir.
-Que bobagem, Cacá! Ciúmes dos meus cabelos!
Mas ficou séria quando viu que Carlos estava decidido. Era melhor terminarem, disse Carlos. E disse que ela nem se dava conta do cuidado constante que dedicava ao cabelo, dos seus repetidos gestos de amor com o cabelo, do prazer sensual que obviamente tinha em manusear o cabelo, e de como isso o aborrecia. E disse:
- Viu só? Viu só?
Pois, durante todo o tempo em que Carlos despejara suas mágoas e suas queixas contra o rival, Cláudia não parara de se olhar no espelho, e apalpar o cabelo, e passar os dedos pelos seus fios, e sacudi-lo, e ajeitá-lo, e...
Dias depois de brigarem, Carlos encontrou Cláudia com o mesmo cabelo e outro namorado. Chamado Paulo Artur. Perguntou ao Paulo Artur como ele conseguia conviver com Cláudia e o seu amor pelo cabelo. "Com humildade", disse Paulo Artur. E ficaram, os dois, olhando para o cabelo que Cláudia atirava de um lado para o outro, e apalpava, e desfiava, e sacudia...Tinham que reconhecer. O cabelo era muito mais bonito e interessante do que eles.

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Quem sou eu

Raphael Fernandes
Carioca, Brasileiro, Estudante de Robótica
Hiperativo, Imperativo
Gosto de tecnologia, de transporte, de Rock, de reclamar e de propagandas criativas (e outras coisas que posso ter falado em um post ou não)
Musicalmente falando, sou assim.

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