23 de jun de 2012

Para ser lido na Rio +40, parte 2

Um outro sentido

Estamos celebrando, esses últimos dias, um evento de escala mundial que talvez esteja se encaminhando para ser uma reunião sem muitos resultados concretos, dentro da área proposta. Mas ainda assim, acho válido pela exposição, pela presença, pelos eventos paralelos, pelos protestos. Me deu a sensação de foco do mundo, ao contrário do Pan, que não me deu a sensação de ser algo realmente grandioso.

Os assuntos foram vastos, mas, principalmente, o conceito polêmico do desenvolvimento sustentável. E o foco foi principalmente a poluição do ar, na forma das fumaças industriais, dos automóveis (parênteses para os ônibus a diesel enquanto na Rio 92, eram a etanol para as delegações) e das fontes geradoras de energia. Ainda que o aquecimento global seja uma fase natural do planeta, e que tenhamos petróleo para os próximos anos, é fato que precisamos desenvolver as alternativas. É fato que as metrópoles possuem baixa qualidade do ar - e, de forma geral, baixa qualidade de vários quesitos dentro do conceito de sustentabilidade. Gostaria, então de abrir aqui um campo de poluição que, embora pareça ser menos agressiva, é de grande importância na qualidade de vida e pode, sim, estar afetando o dia-a-dia da população, ainda que de forma indireta: trata-se da poluição sonora.

Vem se falando muito da poluição do ar e dos mares nesses últimos dias e esta é uma atitude louvável, já que são assuntos geralmente colocados em segundo plano e que, pelo menos por enquanto, crescem em seu conceito. Até mesmo foi falado da poluição visual, com o prefeito correndo para sumir com os outdoors da cidade, ou pelo menos a parte “para-inglês-ver” dela, também com postos de gasolina. Só que não podemos nos esquecer da poluição sonora: da busina nossa de cada dia e tudo mais. Esta poluição, que, embora não seja um suposto fator para a elevação da temperatura dos mares e derretimento das calotas, vem elevando o nível de stress - e isso mata, sim. E o que se vê por aí é uma banalização dos barulhos. A busina é o exemplo mais óbvio: o que era para ser apenas um alerta de trânsito e dá multa se utilizada de forma banal, virou uma constante, e, mesmo que em situações em que se espera uma maior tolerância e maior pudor com o uso, como em áreas de escolas e hospitais, não há diferença. Então você busina para empurrar o condutor da frente, criando um ambiente de pressão e a tensão cresce até que um acidente pode acontecer.

Outro exemplo óbvio reside na portabilidade de celulares e afins, permitindo qualquer barulhinho em público. Algumas vezes, estou em transporte público e pareço no meio da bolsa de valores, com tanta gente falando no celular. Resultado dos planos cada vez mais baratos, da concorrência. O que devia ser uma vantagem acaba se tornando um tormento para o espaço compartilhado. E, quando você está tranqüilo, olhando pela janela, de repente, vem um alerta daquela operadora escandalosa. Me pergunto se não há uma maneira de diminuir o volume. A cereja do bolo, porém, é a música no viva voz. A meu ver, muitas pessoas fazem isto já sob influência do ambiente tenso das metrópoles. Há uma necessidade de passar a tensão adiante. Isso cria stress, isso traz doenças. E isso cria monstros.

Existem, ainda, outras formas de transtorno: helicópteros e aviões, ônibus e caminhões, esses de necessidade de logística da parte dos governos para diminuir os transtornos. Os efeitos na pessoa vão do já citado stress, provocando taquicardia e gastrites, mas, além disso, prejudica a audição, ao ser exposto diretamente a uma fonte de ruído, como britadeiras, ou indiretamente, usando fones de ouvido com volume alto para esquecer do mundo lá fora; diminui a atenção; provoca insônia.

A poluição sonora provoca uma situação de tensão nas metrópoles e, muitas vezes, atitudes simples e um pouquinho de autocontrole seriam suficientes para aliviar essa tensão. Não é de admirar que a pessoa que põe música alta no trem e fura o cano de descarga da moto seja a mesma que joga o papelzinho no chão. Os DJs são como os pichadores, mas sem o menor receio de serem vistos ou repreendidos. E o que pode ser feito daqui em diante não é pauta da Rio +20, nem será da Rio +40, mas os efeitos estarão ai, em direção a uma ditadura do barulho, onde manda quem tiver a caixa de som mais alta. Talvez a solução esteja na base, na educação de qualidade, então fica difícil acreditar numa melhora, sabendo do descaso deste país nesse campo.

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Quem sou eu

Raphael Fernandes
Carioca, Brasileiro, Estudante de Robótica
Hiperativo, Imperativo
Gosto de tecnologia, de transporte, de Rock, de reclamar e de propagandas criativas (e outras coisas que posso ter falado em um post ou não)
Musicalmente falando, sou assim.

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